A batalha pelo foco

A figura do escritor engajado é conhecida de todos nós. Muitos dos grandes nomes da literatura combinaram o trabalho criativo às frentes de combate, fossem elas concretas ou simbólicas, estéticas ou políticas, legítimas ou furadas. Ok, ultimamente as coisas ficaram mais complexas — as utopias morreram, o cinismo virou modo de vida, tem sido difícil encontrar autores dispostos a lutar em prol do que quer que seja. Mas ainda há uma última trincheira a nos unir, uma guerra sangrenta e silenciosa que, dia após dia, testa os limites do profissional da escrita, infligindo cicatrizes a sua alma delicada: a batalha pelo foco.

Parte da questão — a das distrações da internet — já foi explorada com bastante talento neste blog pela Carol Bensimon. Mas eu gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência de combatente nessa refrega cotidiana, talvez na esperança de que a confissão tenha algum efeito terapêutico ou educativo.

Há alguns anos, comecei a perceber que meu trabalho estava perdendo rendimento. Eu demorava a me concentrar, e quando conseguia era apenas por algumas dezenas de minutos, invariavelmente seguidos por horas de vagabundagem online, telefonemas vazios e perambulações sem sentido. Várias vezes me vi parado diante da geladeira aberta, perguntando-me o que diabos estava fazendo ali — logo eu, que não costumo ter fome entre as refeições. O dia girava em falso, e na ânsia por fazê-lo render eu me entregava a horas extras tão inúteis quanto exaustivas. Só ia dormir no meio da madrugada, as costas latejando, a consciência abarrotada de culpa e frustração.

Demorei alguns meses pra perceber qual era o problema. Eu não conseguia mais trabalhar dentro de casa. Em algum lugar da minha mente, a promiscuidade entre espaço profissional e pessoal passou a ter um efeito bloqueador. Não dava. Não ia. Meus dias haviam se transformado numa massa gosmenta, que me envolvia pela manhã e só me abandonava quando, extenuado, meu cérebro já não conseguia juntar lé com cré. Em casa, cada vez mais, eu sentia que me esforçava o dobro e produzia a metade — e foi assim que decidi procurar outro lugar pra trabalhar.

Aluguei uma vaga num escritório a algumas quadras de casa. Um lugar amplo e agradável, onde, por uma quantia mensal bastante honesta, eu teria direito a mesa, cadeira, café e conexão com a internet, além da companhia de arquitetos, editores, designers, ilustradores e produtores de teatro, entre outros profissionais de destaque do meio artístico-intelectual. As perspectivas eram excelentes. Eu estava trocando a minha caverna de improdutividade por uma espécie de think tank particular, que serviria para impulsionar-me ao trabalho e incendiar minha imaginação.

Começou muito bem. Eu acordava cedo, tomava banho e café, caminhava cerca de quinze minutos até o escritório e, depois de uma checada rápida nos emails, dava início à lida do dia. A presença de outras pessoas trabalhando à minha volta funcionava como estímulo, e a vigilância alheia desencorajava os ímpetos de errância internética. Para completar, descobri a instituição do almoço em grupo. Sair para comer já não se resumia a uma expedição melancólica ao boteco da esquina; dia após dia, eu tinha a oportunidade de conhecer gente, ouvir histórias, arejar a cabeça das agruras da funilaria ficcional.

Não demorou, porém, para que um novo problema começasse a me atormentar. É agradável trabalhar cercado por trinta pessoas, mas quando você tem que resolver o tom de um narrador ou editar um diálogo encrencado, passar a tarde ouvindo pitis de arquitetos (“Não vem com desculpa, Pedrão, preciso dessas esquadrias instaladas até amanhã!”) ou inquietações cromático-existenciais (“Cê não acha que eu tô sempre carregando no magenta?”) torna-se algo bastante difícil de lidar.

Encarei o novo obstáculo com pragmatismo. Não adiantava lutar contra os fatos: as pessoas estavam fazendo o trabalho delas, eu teria que me adaptar. Depois de uma experiência desagradável com tampões de espuma, resolvi apelar para os fones de ouvido. Eu nunca gostei de escrever ouvindo música, mas achei que era o caso de fazer um esforço adicional. Dei início a uma pesquisa extensa, procurando por obras que se adaptassem à minha necessidade de concentração. Acabei fazendo uma triagem, toda ela circunscrita ao universo da música erudita.

Beethoven, por exemplo, estava descartado. Mozart e Bach até serviam, mas dependia da peça. Chopin era sempre bom. Depois de acumular um repertório básico, dei início ao trabalho, com sucesso considerável. Mas a alegria durou pouco. Com o tempo, o conhecimento adquirido pelas audições sucessivas começou a voltar-se contra mim. Era envaidecedor saber diferenciar um noturno de uma sonata, ou poder enumerar quais as minhas fugas prediletas do Cravo bem-temperado, mas no que dizia respeito à busca por foco, isso não era exatamente uma vantagem. Ao reconhecer as músicas, eu começava a cantarolá-las mentalmente, antecipando movimentos, temas e refrãos — e a concentração ia pro espaço. Eu estava derrotado mais uma vez, e dessa vez a coisa parecia definitiva.

Se eu tivesse o mínimo de amor-próprio, terminava o relato por aqui. O capítulo final dessa escaramuça, embora vitorioso, tem algo de constrangedor, e se decidi revelá-lo é porque minha fidelidade à causa é maior que qualquer vaidade. Vai que meus tropeços não são úteis para alguém?

A salvação veio sob a forma de um conjunto de gravações intitulado Sounds of the earth.  É um desses apanhados de sons da natureza, muito em voga entre massagistas, fisioterapeutas, iogues e meditabundos em geral. O nome é autoexplicativo: ao longo de doze horas de gravação, escutamos uma série de gorjeios, zunidos, bramidos, trinados, pipilos, ganidos, coaxos, gorgolejos e marulhos, entre outras manifestações do mundo natural, todas gravadas ao vivo e em alta qualidade.

O efeito desses sons sobre mim não foi particularmente relaxante. Ao contrário: no início, fui tomado por uma sensação de ridículo, e meu primeiro impulso foi deixar a ideia pra lá. Aos poucos, porém, percebi que estava funcionando, que aquelas gravações estavam me ajudando a retomar o controle da minha mente. Por serem inarticulados, mas reconhecíveis, aqueles sons não me distraíam nem chamavam minha atenção — e pela primeira vez senti que era capaz de me concentrar quando bem entendesse. Às vezes interrompia o trabalho e dava uma olhada em volta, e aquelas pessoas conversando, rindo ou berrando ao telefone pareciam pertencer a um universo paralelo. Eu estava salvo. Meus dias de desagregação faziam parte do passado, e não havia mais nada que pudesse me separar de mim mesmo.

É claro que nada substitui o prazer do silêncio. Há algumas semanas me mudei para os Estados Unidos, onde devo morar por algum tempo. Estou animado com a perspectiva de passar meus dias lendo e escrevendo numa dessas formidáveis bibliotecas norte-americanas, rodeado por janelas anti-ruído e estudantes ensimesmados. Na dúvida, porém, trouxe comigo minha coleção de Sounds of the earth. A luta continua, afinal, e a gente nunca sabe quando pode precisar do grugulejo de um peru ou do pissitar de um estorninho.

Blog da Companhia das Letras, 07.09.2011

Manhã no apartamento

Acordo com uma trovoada. Não: é o caminhão de lixo, que resolveu subir a rua às seis da manhã. Viro na cama. Sem querer esbarro no seu braço. “Falta muito?”, você murmura, e não sei se está falando comigo ou com algum personagem do seu sonho. Você volta a dormir. Eu me levanto com cuidado, caminho lentamente até a porta. A idéia de colocar azeite na dobradiça deu certo: a porta se abre suavemente, sem rangido nenhum.

A casa, como você, ainda não acordou. Uma seda fina parece cobrir os móveis, e é pisando leve que chego à sala e me sento no sofá. Olho para as coisas que me cercam, os pequenos objetos que fomos acumulando ao longo do tempo, e por um momento sinto que não sou eu que os observo, mas o contrário: são os objetos que me encaram, recebendo-me em seus domínios com silenciosa hospitalidade.

É curioso. Aos poucos, começo a perceber que o lugar em que vivemos ganhou uma espécie de independência: os quadros que queríamos pendurar, os livros que prometemos colocar na estante, a cortina que nunca ficou pronta, tudo parece ter encontrado um lugar para si, como se tivesse estado sempre ali, como se não dependesse da nossa presença para continuar existindo.

Eis uma ideia esquisita — uma casa que não precisa de nós, assim como a rua, o bairro, o resto do planeta. Estamos sozinhos. Somos dois estranhos tentando sobreviver num mundo hostil, que se move segundo forças que não conhecemos nem podemos controlar. Um nó aperta minha garganta, alguma coisa localizada entre a angústia e a vontade de tomar água.

Antes que eu possa me levantar, a porta do quarto se abre e revela uma mulher recém-desperta, de cara inchada e olhos espremidos. Caminhando como um zumbi, você passa reto pelo banheiro, esbarra na poltrona e vem sentar-se ao meu lado. Encosta a cabeça no meu ombro. Ficamos uns instantes em silêncio, e tenho a impressão de que você adormeceu mais uma vez. “Aconteceu alguma coisa?”, você pergunta, e eu tenho vontade de responder que sim, que aconteceu muita coisa, que descobri algo terrível sobre o mundo lá fora e agora não nos resta outra alternativa senão continuar juntos e tentar proteger um ao outro, torcendo para que o sofrimento nunca nos alcance — ou que demore muito para chegar.

Não digo nada disso. Respondo apenas que fui acordado por uma trovoada, ou pelo caminhão de lixo, e que acabei perdendo o sono. Você me abraça, dá um beijo no meu pescoço, acomoda melhor a cabeça sobre meu ombro. Ficamos mais uns segundos olhando pra frente, até que você levanta a cabeça e, finalmente acordada, dá uma espiada ao redor. “Quando é que a gente vai pendurar esses quadros?”, você pergunta, ao que eu reajo com uma resposta genérica — e então a gente troca um sorriso cúmplice e começa a pensar no café da manhã.

Blog do IMS, 20.06.2011

Guerra é guerra

1.

Motorista? Tudo psicopata. Como é que eu vou dividir meu espaço com uma banheira de 900 quilos, conduzida por um maluco à beira de uma síncope? Não dá. Não tem razão ou argumento que dê conta. Virou barbárie.

Eu, por exemplo, meto a cara. Vai passar por cima? Passa. Quero ver.

Acabou a camaradagem. Você tem que saber se colocar na rua, tem que desenvolver a linguagem corporal mais adequada para o confronto.

Aprendi muito olhando aqueles caras da CET. Gesto firme. Queixo pra cima. Pode notar, o motorista sente o baque. É uma guerra psicológica: se você cede aqui, o outro se aproveita ali.

O que mais me tira do sério é pedestre culpado. O cara atravessa a rua correndo, como se estivesse invadindo a casa alheia. Tá na faixa, pombas, aproveita! Relaxa! Respira! Aproveita o momento! A estrela é você!

É por essas e outras que a situação chegou onde chegou. Brasileiro é muito frouxo.

Eu, se fosse prefeito, proibia o carro. Enchia a cidade de bonde, de bicicleta, até de cavalo. Acabava poluição, acabava atropelamento, acabava tudo. E se o cara resolver ficar nostálgico da época que dirigia, cadeia nele.

É claro que isso é só um sonho. Tem muito lobby nessa coisa do carro. Muito dinheiro rolando. É por isso que eu falo: no século XIX é que era legal. Tinha atropelamento no século XIX? Tinha poluição?

Agora apareceu a ideia de multar essa gente. É claro que eu aprovo. Mas isso tinha que ter sido feito antes. Agora a anarquia tá feita e, me desculpem as autoridades, minha lei sou eu que faço.

Eu é que não vou ficar encolhido num canto, brandindo os meus direitos de cidadão desrespeitado. A rua é minha, na minha cidade mando eu. Quero ver quem vai ter coragem de me dizer que eu tô errado. Guerra é guerra.

2.

Pedestre? Tudo vagabundo. Você sai do trabalho, pega duas horas de trânsito, ouve buzina, leva fechada de motoboy, e ainda tem que ficar dando passagem pra casal de namoradinho atravessando a rua em câmera lenta?

Não dá. Isso aqui é a selva, meu amigo, não tem lugar pra amador. Lei do mais forte, e acabou.

Vai tentar ser gentil pra ver o que te acontece. Você para na faixa e passa um, dois, três. Parece que liberou, mas aí surge uma excursão escolar, um sujeito de bengala, um grupo de velhinhas… Quando você vê, tem uma fila de carros buzinando nas suas costas. E aí? Faz o quê?

O pessoal fala que o problema do trânsito em São Paulo é dos carros, mas eu não sei não. Carro anda a 40, 50, 60 por hora. E pedestre? Viu o ritmo? Já imaginou o que seria essa cidade se não tivesse faixa pra atrapalhar o fluxo?

Pedestre no Brasil é que nem bicho em extinção. Não pode encostar, não pode falar mal, se reclamar dá processo. Falam muito nos atropelados, mas e o atropelador, como fica? E o trauma da gente? Hein?

Eu só vou respeitar pedestre quando eles começarem a ser emplacados. Quando tiver rodízio de pedestre, pedágio de pedestre, IPVA, inspeção obrigatória. Que brincadeira é essa? E ainda tem preferência na faixa?

O pior é quando você pede desculpas. Já aconteceu comigo. Freei em cima, o cara me olhou assustado, eu senti uma culpinha e ergui a mão. Pra quê? O cara ficou furioso. Começou a me xingar, bateu no meu capô, disse que eu era um assassino e que ele ia chamar a polícia.

Se eu tivesse ficado na minha isso não acontecia. Se tivesse fechado a cara ou soltado um palavrão, ele olhava pra baixo e saía andando. Brasileiro é muito frouxo.

São Paulo sempre foi dos carros. Tá no lema da cidade: não sou conduzido, eu conduzo. Querem me multar, me encher de ponto, tirar minha carteira? Azar o de vocês. Guerra é guerra.

Folha de S. Paulo, 22.05.2011

Nossa época de ouro

Existem momentos em que a História parece se coagular, como se os esforços e talentos de diversas gerações se concentrassem num só tempo e lugar. Exemplo: não deve ter havido melhor ocasião para se entrar num clube de jazz que nos anos 50 em Nova York. O que dizer da Rússia do fim do século XIX, quando gênios da literatura brotavam feito capim? Pois bem: no que diz respeito à centenária arte do congestionamento, o paulistano pode se orgulhar de estar finalmente testemunhando uma época de ouro.

Nós chegamos lá. Vivemos um momento histórico, pelo qual seremos lembrados ao longo dos próximos milênios. Não à toa, nossas conquistas já nos dão certa empáfia. É comum que o paulistano, ao ver-se preso no engarrafamento de outra cidade, exiba um esgar petulante, como se dissesse: “Isso não é nada. Queria ver esses caras lá na Anhaia Melo, numa quinta-feira de noitinha”.

O fato de termos chegado tão alto na cadeia engarrafatória parece nos emprestar certa superioridade moral. Vivemos a efervescência do novo, a arrogância de quem se sabe protagonista de uma revolução. A disseminação de aparelhos de DVD e videogames dentro dos veículos é só o primeiro indício de um processo inexorável de transformação social.

Pessoas dormem dentro dos carros, para não perder a vaga no estacionamento; rádios de trânsito prosperam mais que as musicais; na hora do recreio, crianças discorrem sobre as fragilidades do sistema de medição de quilometragem da CET; a fila tripla é uma realidade. Se tudo isso não configurar uma revolução, o que mais configurará?

Mas ainda há quem resista à marcha do futuro. Outro dia um amigo propôs ao analista que passasse a acompanhá-lo de carro ao trabalho. O percurso dura mais ou menos uma hora, e ele pagaria o preço da sessão e o táxi da volta — sairia mais barato do que locomover-se para o consultório na hora do rush, duas vezes por semana. O analista não topou. Insensibilidade histórica é isso aí.

Folha de S. Paulo, 13.03.2011

Ei, você.

Nas próximas três semanas (de 20 de outubro a 7 de novembro) participarei do Circuito SESC de Artes 2010, visitando cidades do interior paulista e fazendo generalizações irresponsáveis sobre cada uma delas. Os textos poderão ser lidos no blog especial do evento, localizado aqui. Aproxime-se.

Loquacidade e resistência

É agradável falar. Existe algo de prazeroso em ter uma ideia, organizá-la mentalmente, reunir ar nos pulmões e, através de uma ação combinada de cartilagens, músculos e nervos, transmiti-la a outra pessoa. Também é bom ser compreendido, perceber que à sua frente há alguém dedicando tempo e atenção para escutar o que você diz. Ele registra as suas palavras. Avalia. Elabora uma resposta. Você replica, ele volta a responder — e assim ficam os dois, como num jogo de frescobol, com a vantagem de que não é preciso sair correndo para pegar a bolinha. O prazer da comunicação está na origem de boa parte das conquistas humanas, mas é curioso observar que, nos últimos anos, esse negócio de abrir a boca e sair falando tem dado margem a algumas preocupantes distorções.

Em 2009, um francês chamado Lluis Colet bateu o recorde mundial de loquacidade ao falar durante 124 horas seguidas. Entre os tópicos abordados em seu discurso estavam Salvador Dalí, rúgbi, o conde Wifredo I e trens de alta velocidade. Não se tem notícia da existência do recorde inverso — o de mutismo. Suponho que alguns monges poderiam reivindicar tal marca, mas para isso eles teriam que erguer a voz, o que acabaria pegando meio mal. É digno de nota, de qualquer maneira, que o ato de tagarelar tenha ganhado tanto destaque, soterrando as sutis qualidades da discrição e do silêncio.

Acho que foi Michel de Montaigne quem disse que não existem duas opiniões iguais. Isso devia ser verdade no século XVI. Quinhentos anos depois, é cada vez mais difícil escutar algo que não seja uma diluição mequetrefe do pensamento alheio. É um fenômeno complexo, que envolve probabilidade estatística e vagabundagem intelectual. Opinar deixou de ser um ato criativo. Já nem mesmo é uma escolha: aos poucos, o ato de abrir a boca e dizer o que se pensa transformou-se em uma necessidade fisiológica, como espirrar ou ir ao banheiro. Opina-se para o nada, pelo simples prazer de fazer ecoar a própria sabedoria, o que me faz imaginar o que aconteceria se um dia, por algum motivo neurológico ou sobrenatural, fôssemos impedidos de manifestar opiniões. Massacres. Quebra-quebras. Suicídios em massa. O mundo entrando em colapso, agônico e afônico.

A verborragia é uma realidade, e lutar contra ela é inútil. Não deixa de ser tocante, porém, conhecer histórias como a de Ben Grocock, o britânico que aos três anos de idade — em protesto contra a insistência da mãe para que operasse as amígdalas — deu início a um voto de silêncio que durou até a adolescência. Ben, que passou quase uma década comunicando-se com a família através de bilhetes e sinais, só interrompeu a greve vocal quando, aos treze anos, ao receber o diploma de um curso de brigadista do Corpo de Bombeiros, deu um passo à frente e, para espanto geral, exclamou: “obrigado”.

Vejam como são as coisas. Fosse Ben Grocock um tagarela contumaz, seu pronunciamento seria só uma obrigação protocolar, e suas palavras teriam imediatamente se perdido na poeira do tempo. Diante da década de silêncio, seu singelo agradecimento ultrapassou a sala, a cidade, o país, derrubando fronteiras como se fosse a anunciação de um milagre.

Tudo isso pra dizer que talvez a gente fale demais, e que fechar a matraca de vez em quando pode ser bem razoável. É claro que essa é uma verdade relativa. Mesmo este texto, as palavras enfileiradas nesta página de jornal, não passam da representação gráfica de minhas ideias e reflexões: num certo sentido, é como se eu estivesse aí, na sua sala, tagarelando sobre a vida, o que evidentemente inviabiliza a minha argumentação e faz de mim um aproveitador hipócrita merecedor de desprezo e punição. Mas essa é só a minha opinião — a do leitor, com todo o respeito, prefiro deixar para outra hora.

Brasil Econômico, 08.10.2010

Balõezinhos

Em algum momento do século XII, um membro da corte inglesa chamado Daniel de Beccles publicou um catatau em forma de versos intitulado Urbanus Magnus, ou, como veio a ser conhecido, O livro do homem civilizado. Trata-se de um manual de comportamento destinado a doutrinar jovens mancebos a agir de acordo com os códigos morais estabelecidos pela corte, então comandada por Henrique II. Entre orientações higiênicas, sexuais e hierárquicas, o livro traz ensinamentos como “se você tiver um segredo a guardar, não conte para sua mulher” ou “não ataque um inimigo se ele tiver ajoelhado para defecar”.

Novecentos anos se passaram desde que Daniel resolveu sentar diante da escrivaninha e, usando sua habilidade de versificador, dar uns pitacos na vida da rapaziada. Seu trabalho, porém, não poderia ser mais atual. Se vivesse hoje, o nobre inglês provavelmente já teria montado um site próprio, faria palestras em universidades e, a depender de seus dotes comunicativos, apresentaria um quadro em um programa vespertino de televisão, onde leria perguntas de espectadores e daria algumas de suas dicas de elegância (“não leve para casa a colher que você usou para comer”) e requinte (“não mate moscas nos braços em frente ao seu patrão”).

É compreensível. Vivemos dias sombrios, afinal. Num momento como esse, é natural que a humanidade procure se refugiar em qualquer coisa que esteja além de seus parcos conhecimentos. Nunca precisamos tanto de gurus. Alguns deles apontam para o céu, buscam explicações divinas para os mistérios da vida e da morte; outros, por sua vez, preferem apontar para o jeito com que o cidadão amarra a gravata. Como bem disse o músico e consultor de etiqueta Paulinho da Viola, “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender” — e aí está todo um mercado de trabalho pronto para ser explorado.

Fiquemos com o exemplo do matrimônio. Casar-se sempre foi complicado, e é importante que exista alguém disposto a organizar e simplificar as coisas. Talvez fosse essa a função original dos tais “cerimonialistas de casamento”. O tempo, porém, tratou de deformar a profissão, transformando-a num desses tipos de atividade cuja principal atribuição é justificar permanentemente a própria existência — ou seja, tornar tudo tão caótico e indevassável que só o próprio responsável pela bagunça poderá desatar todos os nós.

Cerca de um ano atrás, fui padrinho no casamento de um amigo. Após uma rápida cerimônia religiosa, fomos apresentados à profissional encarregada de organizar a recepção. Com ar despótico, a moça informou que os padrinhos não poderiam se juntar ao resto dos convidados nem se servir do jantar, já que seria necessário um “treinamento” antes da abertura da pista de dança. Então fomos instruídos a formar uma fila, segurar balõezinhos em forma de coração e, quando a música começasse, atravessar o salão “fazendo alguma coisa engraçada e descontraída”. Ao chegar à pista, devíamos seguir os passos do coreógrafo, contratado para dar uniformidade à apresentação e “fazer a energia fluir”.

Resisti, é claro. Fiz um protesto formal, sem resultado, e me pus a buscar cúmplices, na tentativa de organizar um motim. Depois de alguns minutos, porém — e percebendo a naturalidade que os outros recebiam as ordens da comandante —, resolvi deixar a insurreição para lá. Mais do que isso: aos poucos, enquanto via a fila de padrinhos tomando forma, comecei a ser tomado por um discreto arrependimento. Afinal, qual era o problema? O mundo é um lugar complexo. As respostas são poucas, a morte se aproxima a galope, tudo é incerto e confuso — nesse contexto, nada pode ser mais reconfortante que alguém nos dizendo o que fazer, como agir, para onde nos dirigir. É bem provável que Daniel de Beccles, se vivo fosse, assinasse embaixo das determinações da cerimonialista. Alguém cutucou meu ombro — tinha chegado a minha vez . Então respirei fundo, segurei meu balãozinho e avancei, saltitante e feliz, rumo aos braços do coreógrafo.

Brasil Econômico, 24.09.2010

Glândulas

Há alguns meses, o presidente boliviano Evo Morales surpreendeu o planeta ao afirmar que a ingestão de frango com hormônios leva à homossexualidade e à calvície. A declaração gerou reações indignadas da comunidade científica e de grupos gays — e não é improvável que também tenha irritado alguns carecas vegetarianos, subitamente suspeitos de mentir a respeito de sua dieta. O presidente pediu desculpas, o mundo se acalmou, mas ninguém deu muita atenção ao verdadeiro protagonista de seu discurso: o hormônio.

Eu sei, essa história de frangos vitaminados é considerada um mito, mas a indignação de Evo é um sinal de que os tempos mudaram. Até uns anos atrás, todos os problemas da humanidade — ou ao menos aqueles que cabiam no noticiário científico — pareciam ligados ao colesterol. Era o tempo da condenação do ovo, da expiação da manteiga, do exílio dos açúcares. Estávamos diante de uma nova potência religiosa: a igreja coronariana. Não havia gordura saturada que escapasse à sanha dos inquisidores, que a cada semana escolhiam um novo vilão para atirar à fogueira. Pois bem. De uns tempos para cá, a obsessão midiática parece ter migrado do colesterol para os hormônios.

É um assunto bem mais complexo, sem dúvida. Estamos falando de glândulas. De secreções. De substâncias enigmáticas, que trazem nomes como dopamina, tiroxina, progesterona, cortisol. Hormônios são produzidos quando rimos, quando fazemos exercício, quando nos apaixonamos. Eles regulam o metabolismo. Controlam o crescimento. Uma interrupção repentina na produção de uma dessas substâncias pode gerar alterações radicais de comportamento e levar à degeneração física e, quem sabe, à morte. Por conta de tudo isso, não existe acontecimento nos últimos tempos que não seja explicado por desequilíbrios hormonais. A infidelidade. A crise nas bolsas. O vício em internet. A magreza do Steve Jobs.

Ok, talvez a novidade não seja tão grande. Sou um leigo no assunto. Há, porém, um certo sabor na ignorância, e é assim que me surpreendo ao descobrir que, de acordo com uma universidade americana, mulheres barrigudas tendem — por motivos glandulares, é claro — a ter problemas de memória. Ou que os homens produzem certos hormônios com o nascimento dos filhos, o que os auxilia a desenvolver habilidades paternas. Ou, ainda, que mulheres que fazem aplicação de testosterona tendem a ser mais responsáveis em movimentações financeiras que os homens.

Diante de minha natural hipocondria, é inevitável que, aos poucos, o assunto saia das páginas científicas e comece a dominar meus pensamentos. Se estamos tão sujeitos a desequilíbrios hormonais, quem garante que uma alteração irremediável não esteja em curso dentro de mim? Como minhas glândulas reagirão, por exemplo, ao fato de eu estar escrevendo um texto sobre o assunto? Sinto uma coceira estranha no pescoço, um aquecimento repentino na palma das mãos. Resolvo sair de casa. Nas ruas, o que vejo é uma multidão de reservatórios hormonais, todos transportando suas secreções para lá e para cá. Observo com atenção. Tento discernir, em algum dos seus gestos, a revelação de que está tudo bem, que não há motivo para me preocupar. Mas como saber se esses gestos não são resultado de alguma metamorfose endocrinológica?

Talvez o segredo do mundo seja esse. Nossos problemas não são de ordem econômica, política ou social. Não, o homem não é mau por natureza, nem é seu destino padecer sobre a terra. Esqueçam a psicanálise, a astrologia, a conversa mole dos filósofos e economistas. Deus voltará, não sob a forma de um homem, mas de uma glândula salvadora, que expelirá nos escolhidos os hormônios da redenção. Só nos resta esperar. E, em silêncio, secretar.

Brasil Econômico, 10.09.2010

Oráculo eleitoral

Existem muitas maneiras de se encarar o horário eleitoral gratuito. Há quem simplesmente o ignore, aproveitando o intervalo entre o jornal e a novela para jantar, colocar os papéis em dia, ligar para primos distantes ou fazer compras pela internet. Há, ao contrário, aqueles que assistem à propaganda política como um passatempo amargo, fazendo chacota da nossa precariedade democrática. Mas existe uma terceira possibilidade, ainda não devidamente conhecida e divulgada, que poderia trazer consideráveis dividendos à população brasileira. Todas as noites, o horário eleitoral nos oferece uma oportunidade única de transcendência e espiritualidade — e é para iniciar o leitor nessa notável experiência que concebemos este pequeno guia.

Antes de mais nada, deposite um copo cheio de água sobre a televisão. Mantenha-a desligada. É importante esse instante de silêncio, de preparação ritual. Quando o relógio marcar 20h30, sente-se numa posição confortável, respire fundo e, como quem acende uma vela, ligue o aparelho televisor.

Deixe-se envolver pelas imagens. Num primeiro momento, convém não esforçar-se para decifrá-las. Aos poucos, corpo, mente e televisão começam a se conectar, formando uma só corrente de energia, que flui livremente através de você. Passe então a analisar mais detidamente a programação. Repare na semelhança entre os estúdios dos candidatos, a mesma luz indireta, os mesmos abajures, os mesmos livros ao fundo — são como cômodos diferentes de uma mesma casa. Aferre-se a essa ideia: o horário eleitoral não é uma colagem aleatória. Ele é um universo fechado, único, dotado de lógica própria e cristalina. Mentalize a existência de uma inteligência superior. Tudo é premeditado. Tudo se justifica.

Feche os olhos por um instante. Permita agora que os sons penetrem sua mente. No princípio, eles soarão como um uivo desconexo, entremeado por canções joviais e assobios de otimismo. Aos poucos, as palavras começam a ganhar independência. Você reconhece cada uma delas: “estado”, “emprego”, “pobreza”, “biografia”. Não permita que vocábulos estranhos (“tripartite”, por exemplo) interrompam o fluxo de energia. Pense em cada palavra como um degrau, através do qual você seguirá avançando rumo à elevação final.

Abra os olhos. Se tudo correr bem, agora estará começando a propaganda dos deputados. É um momento importante, de depuração anímica e espiritual. De uma hora para outra, tudo se intensifica. Os discursos são velozes. As imagens, repetitivas. Há números, nomes, siglas, que se sucedem em ritmo vertiginoso. Você já não é capaz de separar uma coisa da outra, e é possível que nesse momento um princípio de taquicardia tome seu peito. Não se assuste: é sinal de que você está conectado, que cada célula de seu corpo conspira para essa sensação de unidade, de perfeita harmonia e comunhão.

É aí, quando menos se espera, que a propaganda chega ao fim. Não se deixe abater: imediatamente desligue a televisão, levante-se e pegue o copo de água. Beba lentamente. Pense que o líquido concentra toda a energia reunida ao longo dos últimos quarenta minutos. Cada palavra, cada imagem, cada expressão facial, cada gesto ou promessa — tudo está ali, reduzido a seu estado bruto, concentrado num único impulso vital. Você está além da razão. Você é parte do todo. Deposite o copo sobre a mesa. E então soluce, sentindo na carne as emanações poderosas desse vazio transcendente.

Brasil Econômico, 27.08.2010

Carta a mim mesmo daqui a 50 anos

Meu querido Chico,

Espero, é claro, que esta carta te encontre bem. Não me iludo: quando digo “bem”, tento pensar de acordo com seus próprios critérios. Alguma vitalidade. Poucas dores, uma ou outra limitação física, nada que comprometa sua independência ou capacidade de tomar decisões. Se não for esperar demais, também torço para que o fígado ainda funcione, o suficiente para uma bebedeira ocasional.

Como andará o seu humor? É fácil rir de si mesmo aos trinta anos — e agora? Tanto tempo depois, não me surpreenderia se as frustrações tivessem feito algum estrago em seu espírito. Os devaneios, por menores que sejam, acabam esmagados pelo peso dos fatos. As intenções elevadas vão dando lugar a sentimentos mais, digamos, pedestres: a mesquinharia, o orgulho, a ambição vazia. O cinismo. A amargura.

Foi impossível evitar. As coisas foram acontecendo, não havia como se proteger. Há quem tenha te decepcionado; há, ao contrário, aqueles a quem você ofendeu, que não conseguiu evitar magoar — e a culpa por esses gestos ainda deve doer em você.

E há os mortos.

Sim, os mortos. Gente que você amou e que te fez feliz. Gente que ajudava a te definir, que era a janela através da qual você enxergava algum sentido no mundo — e que agora, justamente quando era mais necessário, não está mais por aqui. Você já sabia que seria assim, mas isso não ajudou em muita coisa. Posso imaginar sua perplexidade. Seu assombro. Diante desse vazio, não deve restar muito a fazer senão sentar-se num canto e, em silêncio, acostumar-se à solidão.

A pergunta soa quase absurda, mas eu me sinto obrigado a fazê-la: diante de tudo o que aconteceu, você ainda será capaz de se apaixonar? A proximidade do fim carrega um quê de egoísmo: é uma luta que se trava a sós. Não seria o amor, do seu ponto de vista, um capricho típico de quem, por estar distante da morte, ainda vive a ilusão da eternidade?

É bem provável. Mas, pensando melhor, também pode ser que aconteça exatamente o contrário. Que a iminência do fim, em vez de paralisar o espírito, recheie as coisas de uma intensidade inesperada. De uma hora para outra, você se vê lúcido e forte. Pela primeira vez, sente-se capaz de encarar a vida de frente. Tudo é claro, tudo é igualmente simples e fundamental. As coisas são o que são, e é desse ponto privilegiado que você se permite entregar-se sem medo às paixões mais ferozes.

Será mesmo? Não sei. Estou um pouco confuso. Nem tenho muita certeza, na verdade, do motivo de estar escrevendo tudo isso. No fundo, acho que tenho apenas a expectativa de que essas linhas te alcancem — e que você as leia com uma espécie de compaixão. Quanta solenidade, meu Deus. Que desperdício de palavras. O que espero, no fim das contas, é que você encontre esta carta e, com um sorriso no rosto, grite para o cômodo vizinho: vem cá, meu bem. Vem ver isso que eu achei na gaveta. Dá pra acreditar numa coisa dessas?

Um abraço,

Chico

Revista Bravo!, 08.2010

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